Poesia - Adriano Apriori - Meu Pé De Laranja Lima
*Pintura: Tilo Uischner - Boy With Diving Goggles
O menino bonzinho
Com seu pé de laranjeira
Cavalgando cavalinho
Um gênio vê, que o carrega
Um gênio mas sem garrafa
Para um Aladim sem trapaça:
Ele é um menino bonzinho
A árvore um ramo sem graça
A não ser pro menininho
Que nela se dá o colo
Como se nenhum consolo
De perdê-lo o embalasse
Que amor te ameaça
Com a sua retirada?
Que terror te sobressalta
Dentro da tua própria casa?
Não pode vencer seus temores:
Os pais, irmãos e parentes
Que amiúde te auxiliam
E sempre agridem e ofendem
Come, bebe, fuma e grita
Xinga, tosse e então se baba
Um menino tão bonzinho
Tem medo de tais fantasmas
Escondem-se entre as sombras
E olhares de soslaio
Com palavras espetadas
E sapatos apertados
Tem ainda essa gravata
Coroando um enforcado
Com o cabelo partidinho
E o coração em pedaços
Esse menino bonzinho
Não tem mais sua alegria
Também como poderia?
Tendo um tal super-ego?
Feroz como uma onça
E bruto como um cavalo –
Sempre tudo o intimida
A decepção é seu fardo
Não tem mais papai Noel
Nem pai, somente um jogado
No seu banco preferido –
Se chama desempregado
Viver é uma incerteza
Serei eu mesmo ou um outro?
Queria outra família
Pensando, vive absorto
Sempre se denuncia
Quando apronta molecagem
Ser menino tão bonzinho
É triste, ingrato e covarde
O menino bonzinho
Se oferece pra surra
Vai sozinho para os tapas
E diz consigo: “sou homem”
É um menino adultinho
Que entre os adultos some
De um olhar que não julga
É uma criança com fome
Bonzinho é o Gasparzinho
Sem um amigo que seja
Criança ou adultinho –
Que trágica escolha é essa
Quando tu és invisível
E um horror traz nas vistas
Fantasmas convidas sempre
Com intenções parricidas
Na árvore moribunda
Num colo substituto
Bonzinho fui, fostes, és:
Este mundo paga a conta
Oh, criança que ainda brilha!
Tu não és boazinha, nada!
És bicho, és viva e sublime:
Me olha, ignora e ataca
Eu olho nos olhos dela
E me deixo só olhá-la
Sem moral e sem cuidado
Para não condicioná-la
Somente olhar, ser olhado
Acolher, sair da frente
Receber e saber dá-lo:
Mais que isso é indecente
Criança que fui eu trago
Nos olhos a vida inteira:
Um pouco de mareado
Um pouco de geladeira
Hoje vi em minha face
Tua triste historieta
Fui, sim, menino bonzinho
Bom: também fui capeta!
Posted by
Cláudio Talesman














